sábado, 10 de outubro de 2009

"Toy Story 3": the toys are back in town

O próximo filme Pixar, a 3ª aventura "Toy Story", já tem um trailer após um teaser bem simpático que até vimos no cinema.
Agora que Andy vai para a universidade, todos os seus brinquedos são doados a um infantário e Woody, Buzz e companhia preparam-se para enfrentar grandes dificuldades de sobrevivência...
Desta vez o realizador é Lee Unkrich, até aqui co-realizador em filmes como "Toy Story 2", "Monsters Inc." e "Finding Nemo", e este "Toy Story 3" irá estrear nos Estados Unidos a 18 de Junho 2010 em 3-D claro.
E com isto, a Pixar promete mais um momento de grande emoção nas salas de cinema, aliás como todos anos e a cada novo filme. Buzz Lightyear em modo hispânico, já promete!

"Assault Girls": War Games

O mestre Mamoru Oshii, mais conhecido pelos seus trabalhos no cinema de animação ("Ghost in the Shell", anyone?) está a concluir o seu último filme, "Assault Girls", desta vez um filme live à semelhança do assombroso "Avalon" com muitos efeitos especiais à mistura. O filme irá estrear dia 19 de Dezembro no Japão e já temos o trailer definitivo para divulgar cujas imagens deixam antever mais um filme experimental de um cineasta verdadeiramente único e indispensável. Enjoy!

(clicar na foto para aceder ao trailer)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

"MOTELx 2009": Balanço Dia 3

Sexta-feira 04 de Setembro, 3º dia do Festival MOTELx e programação ultra carregada com 8 longas-metragens, 2 documentários e uma mão cheia de curtas. O dia começa às 15h com uma primeira amostra de curtas-metragens portuguesas em competição, à qual se segue o primeiro filme do dia da Secção Serviço de Quarto, “From Within” de Phedon Papamichael.
Tivemos infelizmente de falhar essa sessão apesar da curiosidade que tínhamos em descobrir o filme. Phedon Papamichael é um conceituado director de fotografia de origem grega que trabalha desde sempre nos Estados Unidos, tendo dado nas vistas com filmes como “The Million Dollar Hotel” de Wim Wenders, “Identity”, “Walk the Line” e “3:10 to Yuma” de James Mangold, “Sideways” de Alexander Payne ou ainda “W.” de Oliver Stone, e a sua segunda longa-metragem “From Within”, série B paranóica influenciada pelo yurei eiga, filme de fantasmas japonês, parece ter muito boa pinta.
O MOTELx começa para nós às 17h com “Pig Hunt” de James Isaac, que escolhemos em detrimento de “Seventh Moon” de Eduardo Sánchez exibido às 17h30, um dos realizadores do famoso “The Blair Witch Project”, o outro sendo Daniel Myrick, que desde então nunca conseguiram sair da categoria de realizadores de segunda zona.
Segunda categoria, é sem dúvida onde se situa também este “Pig Hunt”. James Isaac é quase um veterano da indústria, apesar de ter realizado apenas 4 longas-metragens, que começou na primeira metade dos anos 80 como técnico de efeitos especiais, nomeadamente no design de criaturas junto da Chris Walas Inc. em filmes como “Gremlins” de Joe Dante, “Enemy Mine” de Wolfgang Petersen ou “The Fly” de David Cronenberg, o realizador canadiano recorrendo novamente aos seus serviços em “The Naked Lunch” e “eXistenZ” após os quais até interpretou um papel em “Jason X”, décimo filme da saga “Friday the 13th” realizado por James Isaac.

O cineasta norte-americano é portanto um simpático artesão que actua principalmente no circuito dos DTV e da série B a roçar a série Z, destacando-se do resto dos seus colegas principalmente porque até sabe filmar. Portanto, os filmes de James Isaac nunca são totalmente maus mas também nunca são verdadeiramente bons. Várias coisas, sobretudo planos de câmaras, efeitos de maquilhagem e um espírito fanboy sincero, se aproveitam de “House 3”, “Jason X”, Skinwalkers” e “Pig Hunt” mas no final nenhum é um filme memorável, alguns sobrevivendo por serem guilty pleasures.
E é exactamente o caso deste “Pig Hunt”, um dos seus filmes mais cheap, nomeadamente nos efeitos gore e na caracterização da criatura, um javali gigante que a câmara tenta disfarçar como pode. Esta história de caça de porco selvagem em plena América redneck que acaba por misturar citadinos armados em superior, sulistas pró-Bush sócios da NRA e hippies adeptos do sacrifício humano e da comunhão literal com o espírito da Mãe Natureza até tinha potencial mas tratada no modo da farsa com personagens inexistentes interpretados por actores uniformemente maus, James Isaac passa ao lado do creature feature violento e tenso, carregado de um subtexto político irreverente, que sentimos que quer fazer. Sobra um filme minimamente fun, uma espécie de série Z de luxo com umas filmagens acima da média, nomeadamente uma perseguição de carros e motas pela floresta tecnicamente empolgante. Pelos menos serviu para limpar o cérebro e preparar-nos para o complexo filme seguinte, “Sauna” do finlandês Antti-Jussi Annila.
Mas antes disso, uma palavra sobre o documentário exibido a mesma hora que “Sauna”, “Viva La Muerte! Autopsie du Nouveau Cinéma Fantastique Espagnol” de Yves Montmayeur, convidado do Festival e membro do júri da competição de curtas portuguesas. Tivemos pena de não poder ver esse estudo sobre o incontornável cinema de terror espanhol, a fenomenal qualidade dos cineastas ibéricos e dos seus filmes merecia sem dúvida uma análise digna desse nome.

Após a projecção da curta nacional “Sangue Frio” de Patrick Mendes, tivemos então direito ao filme “Sauna”, pessoalmente um dos filmes da programação que mais aguardava, e de facto, não houve desilusões. O jovem cineasta Antti-Jussi Annila é sem dúvida um realizador de cinema de género muito atípico. Após um primeiro filme, “Jade Warrior”, tentativa de revisitar o género do kung fu movie pelo prisma de uma sensibilidade nórdica, que dividiu aqueles que o viram, “Sauna” é mais uma prova da veia iconoclasta do realizador finlandês, procurando fazer do seu filme uma experiência atmosférica introspectiva que trabalha o espectador sobretudo a um nível psicológico.
Este tipo de abordagem não é nova mas, pelos tempos que correm onde o cinema de género popular, e em particular o cinema de terror, é cada vez mais mastigado, simplificado e percorrido de efeitos imediatos em detrimento de efeitos de medo mais duradouros, as escolhas de Annila acabam por se revelar ousadas e exigentes. Mas se o cineasta consegue a sua aposta é sobretudo porque as bases do seu filme apoiam-se num verdadeiro projecto cinematográfico no sentido de que as imagens são o vector essencial de transmissão dos sentimentos/emoções e mensagens do filme.
Juntando-se ao Pascal Laugier e ao seu “Martyrs” pelo radicalismo do projecto que se propõe concretizar, apesar de uma óptica completamente diferente em termos de armas a utilizar, mas também ao Fabrice Du Welz e ao seu “Vinyan” (do qual falaremos no balanço do 4º dia do Festival) pela depuração total dos códigos narrativos tradicionais substituídos por uma fé inabalável no poder das imagens, Antti-Jussi Annila impressiona pela sua mestria visual e pela capacidade em discretamente aprisionar o espectador nas teias labirínticas da viagem mental ao centro da culpabilidade e da redenção experienciada pela dupla de personagens principais.
A escolha da época retratada (século XVI) e dos locais (fronteira Finlândia – Rússia numa floresta/pântano a perder de vista, austera e debaixo de neve), onde se desenrola a história, participa logo de início na instalação de um clima perturbador e misterioso que progressivamente vai de forma insidiosa contaminar a alma das personagens e, por conseguinte, os espectadores.
Num ambiente medieval realista que ao longo do filme vai transpondo o limiar do fantástico presente em filigrana desde de princípio, aliás a noção de fronteira que está na base da história ganha uma correspondência reflexiva a vários níveis durante o filme (fronteira Finlândia/Rússia, fronteira mundo dos vivos/mundo dos mortos, fronteira culpabilidade/redenção), “Sauna” exige dos espectadores um abandono de si próprio, não através da empatia pelas duas personagens principais (isso é a arma utilizada por Du Welz em “Vinyan”, como o veremos proximamente) porque o fanatismo de um e a fraqueza do outro não o permite, mas sim através do hipnotismo das imagens que, tirando um partido máximo de paisagens carregadas de simbolismos, nos fazem entrar noutro mundo, longe do racionalismo que os temas do filme poderiam deixar antever.
Com um ritmo lento e uma narração introspectiva ao extremo, que Tarkovsky ou Kubrick não teriam renegado, Annila contorna os habituais defeitos inerentes a essas construções diegéticas, quando não são subjugadas, graças a uma câmara que destila, por um lado, o medo do desconhecido e, por outro, o assombro do lado oculto e inconfessável que todos temos dentro de nós. No primeiro caso, os cenários e a atmosfera são decisivos e perfeitamente bem geridos pela realização. No segundo caso, a correspondência tecida pelo cineasta entre as imagens e o conflito interior das personagens causa um profundo impacto sem que o espectador se aperceba de tal de imediato porque o simbolismo e a reflexividade são utilizados de forma muito subtil e em crescendo sem nunca parecerem forçados ou demasiado didácticos, alternando com inteligência níveis de leitura mais ou menos evidentes com caminhos mais obscuros, o que in fine faz de “Sauna” um objecto fílmico fascinante por recusar revelar todos os seus segredos e conseguir certamente crescer a cada nova visão.

E se chegado a esse ponto, alguns ainda duvidam da rigorosa coerência da visão de Antti-Jussi Annila assim como da sua mestria cinematográfica, o final do filme acabará por convencer qualquer um tanto é o choque estético e emocional que o mesmo proporciona, representando o culminar ideal e recompensador de todas as temáticas e reflexões abordadas até aqui. Sem dúvida um dos finais mais arrasadores e inesquecíveis que vimos nos últimos anos, a imparável demonstração da declaração de intenções levada a cabo pelo cineasta ao longo do filme de que as imagens é que devem transmitir tudo, e neste caso, que o preço a pagar pelos nossos erros indesculpáveis é a perda definitiva da inocência, não só a nossa individual mas a de toda a humanidade. Filme exigente e revelador do surpreendente talento do jovem Antti-Jussi Annila, “Sauna” faz parte das melhores propostas que se viram durante o Festival, nada menos.
Depois desta assombrosa sessão, veio mesmo o filme ideal para nos recompormos, um clássico indispensável do cinema gore, the one and only “Re-Animator” de Stuart Gordon. O filme foi apresentado pelo próprio cineasta, o qual apareceu-nos como um homem discreto, humilde e quase surpreso de tanta homenagem para um simples artesão de série B. Claro que Stuart Gordon é muito mais do que isso, aliás porque “Re-Animator”, a sua primeira longa-metragem, foi um marco do género da comédia gore slapstick a par dos filmes de Sam Raimi e de Peter Jackson.

E que dizer que já não foi dito sobre esta adaptação livre de um conto do mestre Howard P. Lovecraft? Pouca coisa, a não ser que é incrível como o prazer se mantém intacto a cada nova visão do filme, o público em delírio da Sala 1 do São Jorge que o diga. Puro produto dos anos 80 que aguentou muito bem os quase 25 anos que já passaram, “Re-Animator” é um filme de puro gozo, sólido na realização e de uma imaginação sem limites no delírio gore, tirando um partido máximo de um budget mínimo. Algumas cenas já entraram no panteão das cenas mais memoráveis do cinema, como a cena da cunilíngua feita por uma cabeça à solta ou ainda toda a cena final na morgue, simplesmente dantesca. O filme também beneficia bastante da carisma muito própria do actor, na altura desconhecido, Jeffrey Combs, que com um único filme se transformaria numa ícone da serie B de terror, o cientifico alucinado Herbert West para sempre. Combs acabaria por ser um dos actores fetiches de Stuart Gordon, um pouco à maneira da dupla Sam Raimi/Bruce Campbell, participando em filmes como “From Beyond”, “Robot Jox”, “The Pit and the Pendulum”, “Fortress”, “Castle Freak”, “Edmond” e “The Black Cat”, episódio da 2ª temporada de “Masters of Horror”. Mas este formidável actor, que também merece uma homenagem, também ficou ligado ao produtor de “Re-Animator”, Brian Yuzna, realizador que se encarregou das 2 sequelas, “Bride of Re-Animator” e “Beyond Re-Animator”, estando prometida uma 3ª há algum tempo intitulada por enquanto “House of Re-Animator”, que veria o Dr. Herbert West (Jeffrey Combs of course) ressuscitar o Presidente dos Estados Unidos. Fala-se do regresso de Stuart Gordon atrás das câmaras, esperemos que assim aconteça.
Convém referir que antes da obra-prima de Stuart Gordon, foi exibido a curta portuguesa “Papá Wrestling” de Fernando Alle. Para além de se revelar uma excelente ideia dos programadores do Festival passar a curta na sessão de “Re-Animator”, já que os dois projectos partilham a mesma irreverência gore, é de louvar o trabalho de Fernando Alle por principalmente ter conseguido levar a sua ideia de partida até ao fim e ter contornado as limitações de um orçamento inexistente para compor maquilhagens particularmente eficazes dadas as circunstâncias. A história segue um miúdo martirizado por um bando de rufias lá da escola que lhe roubam a sua lancheira. Uma vez chegado a casa, a criança queixa-se ao seu pai que por ventura é um bisonte adepto do Wrestling com um look directamente herdado do Santo, célebre lutador mexicano, mas aqui versão cor-de-rosa. Quando o Papá Wrestling do título reencontra o bando de putos que roubaram o seu filho, é um verdadeiro massacre que espera os rufias. Ver a criança que faz de filho do Papá Wrestling rir à gargalhada na sala enquanto no ecrã os seus camaradas são literalmente desfeitos vivos sem que nos sejam escondidos quaisquer pormenores, foi sem dúvida um grande momento! Para ver e rever clicando aqui: "Papá Wrestling".
Para acabar a noite, duas sessões à escolha: o tailandês “4Bia” com 4 segmentos dirigidos por 4 realizadores diferentes, explorando o conhecido género do filme de fantasmas, ou a dupla sessão com o japonês “Yoroi: Samurai Zombie” de Tak Sakaguchi (penso que está tudo no título!) e com o britânico “Mum & Dad” de Steven Sheil, mais um exemplo do terror social caro aos nossos amigos ingleses.
Já que o cansaço se começa a fazer sentir, esperando-nos mais 2 dias de Festival bem recheados, e como também já vimos o “Mum & Dad” de Steven Sheil (do qual já falaremos), optamos pela quadrupla mini-dose de cinema de terror tailandês, aliás porque temos acompanhado a carreira da dupla de realizadores Banjong Pisanthanakun/Parkpoom Wongpoom, aclamados pelo filme “Shutter”, representante de qualidade do género agastadíssimo do ghost movie, e cujo segundo filme, o eficaz “Alone”, foi exibido o ano passado no MOTELx.

“4Bia” é portanto uma amostra bastante diversificada do que o género tem para dar no seu berço de origem, ou seja, o continente asiático e aqui em particular, a Tailândia. Os 4 segmentos poderão dividir-se da seguinte forma, o primeiro “Happiness” e o último “Last Fright” representam a vertente tradicional do género com aparições assustadoras regulares e motivações reveladas do fantasma, o segundo segmento “Tit for Tat” quer-se mais moderno na realização e assume-se quase como um filme de acção sobrenatural com mais gore do que o habitual para o género, por fim, o terceiro segmento “In the Middle” tem por objectivo a desconstrução do género com artifícios de argumento auto-reflexivos e self-conscious.
À semelhança de outros exemplos de filmes plurais divididos em segmentos, como “Three” de Kim Jee-Won, Nonzee Nimibutr e Peter Chan ou “Three... Extremes” de Takashi Miike, Fruit Chan e Park Chan-Wook para citar os exemplos mais recentes, “4Bia” é prejudicado pela disparidade de qualidade entre os segmentos. Se no final, o balanço acaba por ser relativamente positivo, destacam-se facilmente o primeiro e o terceiro segmentos, enquanto o último segmento é aceitável e o segundo, um fracasso.
Com a sua história de uma jovem rapariga imobilizada em casa após um acidente de táxi e que troca mensagens por sms com um desconhecido, “Happiness” de Youngyooth Thongkonthun (os dois filmes da saga “The Iron Ladies”) não inventa mas aplica com uma eficiência surpreendente todos os códigos do género. Crescendo progressivo do ambiente de terror, câmara certeira no seu posicionamento, utilização judiciosa e parcimoniosa da cenas de susto com um excelente recurso à escuridão e um ligeiro twist final sujeito à interpretação, não inovador, mas suficientemente bem gerido para convencer. Notável e conseguida tentativa de filme de fantasmas e sem dúvida um bom começo para esta antologia.
Mas o segundo segmento “Tit of Tat” de Paween Purikitpanya (“Body #19”) vem infelizmente resfriar os ânimos. Se a tentativa de modernizar um género por vezes demasiado preso aos seus códigos internos é digna de reparo, o resultado no ecrã é particularmente falhado. A história é tradicional com um grupo de alunos objectos da vingança de um fantasma de outro aluno que atormentaram até matá-lo por acidente mas o tratamento visual assemelha-se à actual estética do torture porn à la “Saw”, ou seja, câmara epiléptica, fotografia saturada de cores fortes e recurso ao gore digital. Resulta um segmento extremamente cansativo e histérico com efeitos especiais digitais mal executados que prejudicam completamente a credibilidade da história.
Chega então o terceiro segmento, “In the Middle” de Banjong Pisanthanakun (“Shutter”, “Alone”), e voltamos à qualidade e à inteligência do cinema tailandês que apreciamos. Aventurando-se no terreno arriscado do filme auto-reflexivo que brinca com os códigos do género e passa o seu tempo a piscar o olho ao espectador, “In the Middle” safa-se surpreendentemente bem graças a um ritmo narrativo rápido, piadas que têm mesmo piada, uns actores em sintonia perfeita com o tom do filme, uns sustos eficazes e um twist final bem apanhado. Sem falsas ironias ou desdém pelo género, “In the Middle” cumpre o seu objectivo sem problemas, fazer rir e assustar ao mesmo tempo, o que nunca é fácil.
Para acabar, temos “Last Fright” de Parkpoom Wongpoom (“Shutter”, “Alone”) que conta a história de uma hospedeira que terá de enfrentar sozinha e em pleno voo o fantasma da mulher do seu amante. “Last Fright” demonstra também alguma eficácia, aliás porque o seu realizador sabe compor cenas de susto, mas não convence tanto como os melhores segmentos desta antologia porque falha em interessar-nos pelo suposto calvário da sua personagem principal e sobretudo porque não consegue evitar alguma previsibilidade dos acontecimentos. “4Bia” conclui-se portanto com um segmento à sua imagem global, ou seja, uma antologia eficaz mas que nem sempre convence. Uma sequela já está em preparação, veremos qual será desta vez o resultado, aliás porque o cinema tailandês de género merece toda a nossa atenção. De referir que a sessão de “4Bia” era antecedida por mais uma curta portuguesa em competição, “A Aposta” de Vasco Sequeira cujo trabalho visual se revelou acima da média dos seus concorrentes.

Para encerrar este dia 3 do MOTELx 2009, uma palavra sobre “Mum & Dad” de Steven Sheil que já tínhamos visto e que faz prova mais uma vez do excelente momento que atravessa o cinema de género inglês.
Primeiro filme do londrino Steven Sheil, realizado por uns míseros 125.000 Euros, “Mum & Dad” está completamente em contra-corrente com o que o seu plot poderia deixar antever. Nas mãos de um estúdio de Hollywood com um tarefeiro qualquer atrás das câmaras e teríamos direito ao habitual dilúvio de gore filmado a videoclip da MTV sem nenhum nível de leitura ou crítica social. Mas isto não corresponde de facto em nada ao projecto de Steven Sheil que, para além de restrições orçamentárias evidentes, procurou reinterpretar alguns clássicos do cinema de terror dos anos 70 através do prisma do que conhece, o realismo social britânico na sua vertente mais sórdida.
Assim, é convocado o fantasma do incontornável “The Texas Chain Saw Massacre” de Tobe Hooper, influência evidente de um Steven Sheil que recusa os efeitos grandiloquentes para privilegiar um ambiente realista directamente herdado da escola do cinema social britânico (Ken Loach, Mike Leigh e companhia) no intuito de esgaravatar os males escondidos da sagrada instituição que representa a família. Em consonância com as démarches de um Shane Meadows ou do recente "Eden Lake" de James Watkins, Inglaterra está aqui debaixo da câmara analítica de Steven Sheil que questiona sem julgar sobre o que se passa na cabeça dos seus compatriotas, o que resulta num filme particularmente doentio e ambíguo mas sempre subtil.
Mesmo se o cineasta nem sempre evita algumas quebras de ritmo dado o seu filme passar-se num único local, “Mum & Dad” instila devagar mas seguramente um clima opressivo e perturbador que se revela mais profundo e dourador por assentar não em efeitos in your face e graficamente violentos mas sim em pequenas escolhas certeiras como a cena do dedo do pé ou o pormenor de um filme pornográfico a passar na televisão como pano de fundo de um jantar familiar à partida banal.
Banal é aliás a palavra perfeita para descrever o que tanta perturba neste filme. Os pais do título do filme são à partida pessoas iguais a tantas outras, a casa onde vivem também, as suas aspirações de vida igualmente, tudo à volta deles faz parte do quotidiano de toda a gente. Só que aos poucos e de forma inteligentemente regrada, tudo se revela diferente, doentio, imundo, revoltante, pervertido.

No final, “Mum & Dad” poderá sofrer da sua condição de pequeno filme mas Steven Sheil soube sem dúvida tirar partido dessa condição e, também graças a um elenco muito inspirado, fez um filme credível e particularmente convincente no retrato de uma família aparentemente normal mas pervertida até ao tutano, proporcionando um olhar desabusado sobre questões ainda tabus nas nossas sociedades através de uma economia de efeitos impressionante. Os cineastas britânicos têm sido exímios nesse aspecto, desmarcando-se assim de cinematografias de outras nacionalidades ao conquistar um lugar à margem dentro do género e relembrando um dos princípios fundamentais do cinema de terror, fazer reflectir o espectador sobre a nossa sociedade.
É agora mais um dia pleno que nos espera amanhã Sábado, penúltimo dia do Festival, onde se destacam vários filmes muito aguardados, nomeadamente “Vinyan” de Fabrice Du Welz, “Deadgirl” de Marcel Sarmiento e Gadi Harel, “Pontypool” de Bruce McDonald ou ainda “Macabre” dos Mo Brothers. Stay tuned!

domingo, 4 de outubro de 2009

"Shutter Island": segundo trailer

Novo trailer do "Shutter Island" de Martin Scorsese e nova amostra que a adaptação cinematográfica do livro de Dennis Lehane vai ser uma autêntica bomba de suspense atmosférica e uma viagem sem regresso aos confins da loucura humana.
Adiada a estreia do filme para 19 de Fevereiro 2010 nos Estados Unidos (estreia nacional à partida no mesmo mês) por causa da crise segundo declarações da produtora Paramount, vai ser difícil esperar com calma o novo filme da dupla incontornável Martin Scorsese/Leonardo DiCaprio.

(clicar no poster para aceder ao trailer)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

"The Crazies": Zombieland

Previsto incialmente para estrear nos Estados Unidos a 25 de Setembro, o remake do filme de George A. Romero, "The Crazies", realizado por Breck Eisner com Timothy Olyphant e Radha Mitchell nos papéis principais irá finalmente estrear em 26 deFevereiro 2010 e acaba de começar a sua promoção com a divulgação do primeiro trailer do filme.
Aparantemente muito diferente do filme original, esta nova versão apresenta-se como um filme de zombies da nova geração. em linha directa com o remake "Dawn of the Dead" de Zack Snyder ou o díptico "28 Days Later"/"28 Weeks Later".
O trailer é bastante eficaz e recupera a estética das actuais produções do género com uma fotografia trabalhada e uma violência gore acima da média dos produtos de estúdio. Resta ver o que é que isto dá, pelo menos parece boa ideia fugir do excelente filme original e tentar fazer uma versão própria, esperemos nós, conseguida.

(clicar no poster para aceder ao trailer)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

"A Nightmare on Elm Street": primeiro trailer

Platinum Dunes, a produtora de Michael Bay, continua a sua revisitação contestável de alguns clássicos dos anos 70 e 80 do cinema de terror norte-americano.
Como já aqui divulgámos, o próximo na lista, aliás previsto para estrear nos Estados Unidos a 30 de Abril 2010, é o remake do clássico de 1984 realizado por Wes Craven, "A Nightmare on Elm Street" que entronizou Freddy Krueger (e o actor Robert Englund) como um dos boogeymen cinematográficos mais célebres de todos os tempos.
Apesar de faltar bastante para a estreia, o primeito trailer já cá está e a fórmula utilizada até aqui pela produtora mantém-se inalterada, ou seja, um realizador jovem e oriundo do videoclip atrás das câmaras (neste caso Samuel Bayer no seu primeiro filme), uma profunda modernização visual e uma maior dose de violência e de espectáculo.
O resultado final é sempre uma incógnita, dado que a qualidade dos remakes anteriores foi até aqui bastante díspar: os dois filmes "The Texas Chainsaw Massacre" surpreenderam e convenceram, "The Amityville Horror" e "The Hitcher" foram particularmente patéticos enquanto a recente nova versão de "Friday the 13th" desiludiu.
Resta esperar para rever, sublinhando a boa ideia que foi ir buscar o excelente actor Jackie Earle Haley para substituir Robert Englund e que, como sempre com os americanos, o trailer está muito eficaz. Wait and see...


sábado, 26 de setembro de 2009

"Harry Brown": Death Wish

Mais um exemplo da vitalidade actual do cinema de género britânico, "Harry Brown" do principiante Daniel Barber com o grande Michael Caine no papel principal assume-se como um cruzamento entre "Gran Torino" e "Death Wish" onde um militar veterano decide vingar a morte do seu velho amigo, assassinado por um bando de jovens.
Continuando a exploração dos temas sociais complexos e ambíguos caraterísticos de um certo cinema inglês de género (último exemplo muito conseguido, "Eden Lake" de James Watkins), "Harry Brown" promete um vigilante movie estilizado, tenso e, esperemos nós, inteligente, contando com o carisma incontornável de Michael Caine himself.
Estreia no Reino Unido no próximo dia 13 de Novembro, ainda não há estreias marcadas para outros países. Resta esperar que Portugal seja um dos próximos contemplados.


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

"The Book of Eli": Man on Fire

Eis um dos filmes de 2010 que mais esperamos, "The Book of Eli" dos Hughes Bros com Denzel Washington num papel principal que quase se poderá assemelhar ao papel que protagonizou no fabuloso "Man on Fire" de Tony Scott mas versão futuristic badass!
Após um teaser-trailer que já deixavam antever um excelente ambiente pós-apocalíptico, cá estáo o primeiro verdadeiro trailer que desvenda o plot do filme assim como todas as personagens. E pelos vistos, "The Book of Eli" vai ser bad motherfucker action movie que promete arrasar o grande ecrã, provando mais uma vez todo o talento formal dos injustamente ignorados irmãos Hughes.
15 e Janeiro 2010 nos Estados Unidos, para quando uma data de estreia em Portugal, mates?

"I Come With The Rain": trailers sul-coreanos

Continuamos sem saber quando é que poderemos ver esta potencial bomba fílmica, acompanhada de perto neste blogue desde Abril 2008. No entanto, ficam aqui mais 2 trailers, desta vez sul-coreanos, que continuam a fazer subir a pressão. Enjoy!

(clicar na foto para aceder aos trailers)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"MOTELx 2009": Balanço Dia 2

Após um 1º dia que não podia ter começado melhor, o 2º dia do Festival já se revelou um dia a sério com 6 filmes para ver e uma Sessão-Concerto (um filme português de 1929 musicado por Legendary Tigerman e Rita Red Shoes), mesmo se os próximos 3 dias iriam estar mais carregados, lógico tratando-se do fim-de-semana.
O dia começa com a apresentação de “Detective Story” de Takashi Miike, filme datado de 2007. O cineasta nipónico tornou-se ao longo dos anos presença obrigatória neste tipo de festivais mas depois de apanharmos tantas banhadas (“Ichi the Killer”, “Visitor Q”, “Big Bang Love, Juvenile A”, “Sukiyaki Western Django”, choose one!), não tivemos pena nenhuma em não poder ir a esta sessão.
A seguir, 2 sessões a escolha: a exibição do inédito “Long Weekend” de Jamie Blanks, mais um representante australiano da selecção, e “Edmond” de Stuart Gordon, primeiro filme a ser exibido no âmbito da homenagem dedicada ao mestre de terror norte-americano. Também não foi possível estar presente no MOTELx para estas sessões, falhando assim a primeira intervenção do próprio Stuart Gordon (mas amanhã não vamos falhar “Re-Animator”), no entanto, como vimos os dois filmes, podemos formular a nossa opinião.
“Long Weekend” é um remake do filme homónimo e também ele australiano, datado de 1978, realizado por Colin Eggleston e escrito por Everett De Roche. O jovem cineasta Jamie Blanks, sobretudo conhecido pelos seus slashers da era post-Scream como “Urban Legend” e “Valentine”, entretanto regressou ao seu país de origem, farto dos executivos de Hollywood, e dirigiu o survival um pouco mais respeitável “Storm Warning” cujo argumento foi da autoria do mesmo Everett De Roche, figura conceituada do cinema de género australiano dos anos 70 (“Patrick”, “Snapshot”, “Harlequin”). Surge então a ideia de fazer um remake do aclamado “Long Weekend” novamente com De Roche no screenplay com intuito de modernizar esta história perfeitamente actual hoje em dia de um casal desrespeitoso da natureza que irá ser castigado da pior forma por essa mesma Mãe Natureza.

No final, “Long Weekend” é um curioso filme que não convence verdadeiramente mas cuja singularidade não deixa de intrigar assim como a inspiração da dupla de actores consegue criar algum realismo no retrato complexo de relações humanas. O problema do filme de Jamie Blanks é não se tratar de um verdadeiro filme de terror. Ao contrário do seu compatriota Greg McLean, podendo-se comparar “Rogue” e “Long Weekend” através dos seus planos à partida similares sobre a natureza australiana e o que de inquietante se esconde nela, Jamie Blanks nunca consegue fazer do ambiente da sua história um ambiente ameaçador ou perturbador para além de faltar ao filme verdadeiras peripécias, as mesmas concentrando-se demasiado no fim do filme. No entanto, a reflexão sobre a violação da natureza pelo ser humano está interessante e subtil, graças nomeadamente a um Jim Caviezel perfeito em besta citadina ignorante e egocêntrica. Aliás o grande ponto forte do filme é o desenvolvimento da relação do casal de protagonista que traz credibilidade ao filme, sem esquecer uma ou duas cenas mais gráficas bem esgalhadas que provam que Jamie Blanks tem algum talento, nomeadamente a cena final que acaba o filme de forma muito cruel, deixando uma marca positiva no espectador.

Relativamente ao “Edmond” de Stuart Gordon, penso que o trabalho do realizador já não precisa de apresentação, sendo que os seus últimos filmes têm representado uma viragem extremamente interessante numa extensa carreira sobretudo marcada pelo amor da obra de Howard P. Lovecraft e uma predominância do gore slapstick. De facto, não nos podemos esquecer que Stuart Gordon começou no teatro experimental onde trabalhou entre outros com David Mamet. Esse background contestatário e vanguardista tem contaminado os seus últimos 3 filmes, “King of the Ants”,”Edmond” e “Stuck” (exibido no MOTELx 2008), uma inesperada trilogia do mal social que tem relembrado aos esquecidos que o norte-americano é sem dúvida um grande realizador. No caso do “Edmond”, o filme adapta uma peça de David Mamet (aqui também autor do screenplay) e mostra-nos numa espécie de “After Hours” sangrento como a superficialidade e o absurdo das nossas sociedades contemporâneas podem levar um homem banal a cometer o irreparável para tentar sentir que ainda está vivo, que não está completamente morto por dentro. Contando com uma performance notável de William H. Macy e uma realização seguríssima de Gordon, “Edmond” é uma fábula negra sobre os mortos-vivos modernos e reais que a nossa sociedade produz em cadeia. Um filme para reflectir e uma associação brutal de Stuart Gordon e David Mamet. Se ainda não viram, façam o favor de ir alugar o DVD no videoclube mais próximo.
Finalmente, chega a nossa hora de marcar presença no Festival, na sessão das 19h para o “Linkeroever” de Pieter Van Hees, com a presença do realizador e da actriz principal, Eline Kuppens. Para tal, tivemos de deixar de lado uma sessão paralela com o filme “Flick” do britânico David Howard, também presente no Festival, uma comédia de terror aparentemente bem simpática mas não se pode infelizmente ver tudo. Acontecimento agradável antes da sessão do muito sério filme belga, assistimos mesmo à nossa frente a uma entrevista do lendário John Landis que não desmente a sua reputação de showman ao pôr constantemente toda a gente a rir à sua volta com histórias, piadas e gestos grandiloquentes.
Passando à frente uma patética curta-metragem português em competição e louvando-se a simpatia e disponibilidade do realizador Pieter Van Hees em convidar os espectadores para ir ter com ele no fim do filme para trocar impressões, descobrimos então “Linkeroever” ou “Left Bank” em título internacional, que foi sem dúvida uma surpresa deste Festival, que também serve para ficar a conhecer novos cineastas e filmografias.

“Linkeroever” assume-se como uma obra diferente daquilo a que geralmente temos direito dentro do género e que acaba por pecar por um nítido excesso de austeridade mas desperta a nossa curiosidade por tratar-se de uma verdadeira proposta de cinema. Abertamente influenciado pelas obras de Roman Polanski, o realizador belga compõe um falso filme de terror que aposta em desenvolver uma atmosfera perturbadora de forma insidiosa e contida, escondendo-se profundamente na capa do filme realista. Herdeiro em termos de imagem da escola belga do filme social, Pieter Van Hees filma a sua história câmara ao ombro, com movimentos febris e bastante grão, sempre a acompanhar de muito perto a sua personagem feminina principal. O que poderia ser à partida um defeito, acaba por se revelar um ponto de diferença interessante, sobretudo porque o cineasta faz prova de uma verdadeira habilidade em utilizar este modo de expressão fílmico. Segura e imersiva, a realização surpreende e desmarca-se do habitual dos filmes de género, tirando o melhor partido de um orçamento minúsculo de apenas 700.000 €.
“Linkeroever” é assim um filme camuflado que curiosamente se revela bastante credível na pintura da sua cidade estranha e das suas personagens perdidas sob ameaça de um perigo desconhecido constantemente à espreita. Todavia, se o filme não convence a 100% é em grande parte por causa de um ritmo narrativo relativamente mal gerido que acaba por causar alguma frustração e tédio no espectador. É de facto sempre complicado gerir uma história que progressivamente promete que se vai passar alguma coisa e finalmente pouco acontece. No entanto, esta exagerada contenção é felizmente compensada por um final tenso, misterioso e enigmático em termos de interpretação, como se Pieter Van Hees tivesse travado o potencial horrífico e surrealista do seu filme até aos últimos minutos, recompensando in extremis o espectador e deixando inteligentemente por explicar vários aspectos deste atípico “Linkeroever”. Como dizíamos de início, resulta então um filme curioso, uma descoberta que intriga mais do que fascina mas que nos permite conhecer um realizador que dará certamente que falar num futuro próximo.
Para acabar bem este 2º dia do MOTELx e após optar por ir jantar nas calmas em vez de assistir à Sessão-Concerto (já agora um pouco de publicidade para o excelente restaurante Cantina Lx em Alcântara, conceito original a descobrir), foi “Martyrs” de Pascal Laugier na sessão da meia-noite que estava à nossa espera para pura e simplesmente nos arrasar como nenhum filme de terror nos arrasou desde os míticos filmes norte-americanos dos anos 70.

Conseguir transmitir através de palavras todo a potência do impacto de um filme como “Martyrs” é de facto uma tarefa muito complexa porque no final estaremos sempre longe da verdade. “Martyrs” é mais do que um filme, é uma experiência visceral, neste caso no verdadeiro sentido da palavra, palavra essa geralmente muito utilizada mas aqui plenamente correcta como raramente o é. À primeira vista, o filme de Pascal Laugier aproveita o género em voga do torture porn mas enquanto filmes como “Hostel”, a saga “Saw”, etc., são no melhor dos casos apenas rides jubilatórios ou no pior filmes oportunistas vazios de sentido, “Martyrs” leva o género ao extremo numa óptica quase intelectual sem nunca esquecer de utilizar todas as armas poderosíssimas do cinema de género. O resultado é assim praticamente inédito no género do terror porque o radicalismo extremista de Pascal Laugier que nunca, mas mesmo nunca, escolhe a facilidade e faz concessões ou piscares de olho ao espectador, é absolutamente impressionante.
Assumindo sem hesitações a sua visão sem desviar de um milímetro do caminho que se propôs trilhar durante a sua história, Pascal Laugier redefine com ousadia e uma segurança inacreditável (é apenas o seu segundo filme!) o que já alguma vez sentimos à frente de um filme de terror. Porque temos de admitir uma coisa, é impossível gostar de “Martyrs” no sentido puramente etimológico da palavra. Frente a tanta dor e tanta crueza, só queremos que o calvário acabe depressa. Mas se sentimos isso é precisamente porque em termos cinematográficos o filme é perfeito e tocou-nos como raramente um filme nos tocou.
Com uma introdução enigmática que mistura melancolia e ambiente de yurei eiga, a primeira parte do filme funciona quase como um filme dentro do filme, interessando-se pela personagem Lucie (admirável Mylène Jampanoï num papel extremamente difícil), adulta que em criança sofreu um rapto e inúmeras torturas. A primeira força de Pascal Laugier é conseguir de início e muito rapidamente instalar-nos na história e interessar-nos pelas personagens. Sem nos deixar respirar um segundo, é um verdadeiro dilúvio de violência que nos assola num estilo totalmente realista longe do filme de terror tradicional. Privilegiando a precisão da câmara com ângulos fatais aos efeitos estilizados e clipescos que gangrenam os actuais filmes norte-americanos da moda, Pascal Laugier consegue uma imersão total do espectador e consegue um equilíbrio complicado de atingir entre empatia e ambiguidade.
A outra força do realizador, que demonstra o total domínio sobre aquilo que quer transmitir, é nunca se ficar por um género definido. Utilizando os códigos do survival parasitados por um ambiente no limiar do fantástico em termos de acontecimentos mas com uma estética de drama intimista constantemente minado por planos violentos directamente extraídos do shocker mais violento dos anos 70, e com uma pitada ainda de filme de fantasmas hardcore, “Martyrs” consegue de forma fascinante extirpar-se do “género” para ganhar uma dimensão superior sem nunca deixar de pagar o seu tributo a todas as influências do cineasta (desde os mestres europeus como Dario Argento a quem o filme é dedicado até aos mestres norte-americanos do terror dos anos 70).

Esta primeira parte não revela portanto nada do mistério do filme e abre progressivamente a porta à dimensão filosófica e metafísica do filme, sendo que nada nos preparou àquilo que vamos assistir a seguir. A violência das imagens que se seguem, suporta da forma mais visceral possível uma reflexão profunda sobre todas as noções presentes nos filmes de terror, ou seja, a dor, a desumanização, a dualidade vítima/carrasco, a perda de identidade, a passagem a um nível superior de consciência e mais ainda. Depurando ainda mais o seu estilo visual à medida que o filme avança e deixando como raramente se viu os fabulosos efeitos especiais de maquilhagem do sobredotado e recentemente falecido Benoît Lestang assumirem um papel narrativo decisivo, Pascal Laugier, através do percurso inesquecível da sua segunda personagem principal Ana (uma interpretação de Morjana Alaoui absolutamente alucinante), partilha a sua visão negra e pessimista do mundo com uma raiva e uma ambiguidade que não poderão deixar ninguém indiferente (o público habitualmente agitado do MOTELx nem tugiu nem mugiu durante a hora e meia de projecção).
Verdadeira ferida aberta sobre o mundo, “Martyrs” é um grito do fundo da alma de Pascal Laugier (um cineasta a seguir de muito perto) que nos diz que a sociedade tem de mudar urgentemente, uma mudança vital para a nossa humanidade, mesmo se o preço a pagar é uma dor insuportável, e onde a promessa de um além purificador não pode nunca servir de pretexto ou de justificação a todas as ignomínias e abjecções. Com um final ambíguo à imagem do filme, “Martyrs” é um pedaço de cinema como raramente se fez, cinematograficamente perfeito e tematicamente desafiador e inteligente, um filme que marcará qualquer espectador para sempre. No final, uma necessidade fílmica e um reencontro com o propósito original do filme de terror, “acordar” física e psicologicamente o espectador. Indispensável e simplesmente o melhor filme do Festival!
Completamente arrasados, saímos do São Jorge já passava das 2h da manhã mas espera-nos mais um grande dia amanhã sexta-feira com o aguardado “Sauna” de Antti-Jussi Annila, o filme de culto “Re-Animator” apresentado por Stuart Gordon himself, o tailandês “4Bia” com várias histórias e realizadores e ainda o doentio “Mum & Dad” de Steven Sheil.